Como a expectativa dos pais afeta os filhos?
A expectativa dos pais afeta os filhos quando deixa de ser apoio e passa a ser projeto: quando o caminho já vem definido e o filho precisa corresponder para se sentir aceito. O efeito mais comum não é a rebeldia, é o oposto. A criança se adapta, entrega o esperado, e aprende que o afeto vem acompanhado de desempenho.
Numa conversa no Ponto de Entrevista Podcast sobre saúde mental de jovens, descrevi um padrão que aparece com muita frequência na clínica:
"Uma coisa que a gente vê bastante é a questão dessa expectativa familiar em cima do jovem, muito frequente na questão profissional. Pais que, por exemplo, não puderam ter a chance de escolher, não tiveram essa oportunidade. E aí eles jogam para aquele jovem: olha, fulano, eu quero que você torne esse sonho realidade. E aquele jovem que não sabe nem quem é ele no mundo ainda."
Karoline Palazzo, no Ponto de Entrevista Podcast (2025)
A frase final é o centro da questão. A expectativa costuma chegar exatamente na fase em que a pessoa ainda está descobrindo quem é, e ocupa o espaço que deveria ser dessa descoberta.
Por que isso pesa tanto na adolescência
A adolescência é o período em que se constrói a autenticidade: descobrir do que se gosta, no que se acredita, que rumo faz sentido. Quando o projeto já vem pronto de fora, essa construção é interrompida antes de começar.
"É um momento de autenticidade. O jovem está buscando mesmo essa autenticidade, essa procura de si mesmo."
Karoline Palazzo, no Ponto de Entrevista Podcast (2025)
Vale dizer com clareza: pais participativos são fundamentais, e o problema não é o envolvimento. É a diferença entre acompanhar e determinar. Apoio emocional sustenta a descoberta; expectativa rígida a substitui.
O que isso vira na vida adulta
Anos depois, esse aprendizado costuma aparecer no consultório em outra roupagem. A pessoa chega falando de ansiedade, de esgotamento, de dificuldade de decidir, de uma sensação persistente de que nada é suficiente. Os formatos mais comuns:
- Autocobrança que não dá trégua: a régua interna continua sendo a de fora, e ela nunca se declara satisfeita.
- Dificuldade de identificar o que se quer: depois de anos correspondendo ao esperado, a pergunta "o que eu quero?" fica sem resposta disponível.
- Culpa ao escolher o próprio caminho: mudar de área ou de rumo é vivido como traição, e não como escolha legítima.
- Conquista que não chega: cada meta atingida vira o novo mínimo, e o reconhecimento esperado nunca se converte em sensação de suficiência.
- Medo de decepcionar: orienta decisões importantes na vida adulta muito depois de deixar de fazer sentido.
Na Terapia do Esquema, esse funcionamento costuma se organizar em dois padrões: padrões inflexíveis, a crença de que só desempenho altíssimo torna alguém aceitável, e busca de aprovação, a régua do próprio valor colocada permanentemente nas mãos dos outros. Entenda como a autocobrança excessiva funciona.
Isso significa culpar os pais?
Não. E essa distinção é importante o suficiente para ser dita com todas as letras: entender a origem de um padrão não é o mesmo que atribuir culpa a alguém.
Na maior parte das vezes, a expectativa vem de amor e de escassez, de pais que quiseram garantir ao filho a segurança que não tiveram. A intenção era proteção. O efeito, ainda assim, foi uma criança aprendendo que precisava entregar para ser querida. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e nenhuma anula a outra.
O trabalho terapêutico não é montar um tribunal sobre o passado. É entender de onde veio a régua, reconhecer o que ela protegeu na época e decidir, agora com escolha, o que fazer com ela daqui em diante.
Para pais lendo este texto
Alguns pontos que costumo trabalhar em orientação a pais:
Separe apoiar de definir
Ajudar a explorar caminhos, financiar experiências, conversar sobre consequências: tudo isso é apoio. Definir o destino e tratar desvio como fracasso é outra coisa.
Repare no que você celebra
Se o reconhecimento aparece apenas diante de resultado, a criança aprende que é o resultado que a torna digna de afeto. Reconhecer esforço, honestidade e recuperação depois de um erro ensina algo diferente.
Cuidado com o "eu só quero o seu bem" que encerra a conversa
A frase é verdadeira e, ainda assim, costuma funcionar como ponto final. Vale garantir que exista espaço para o filho discordar sem que isso seja lido como ingratidão.
Considere olhar para as suas próprias expectativas
Muitas vezes o que está sendo transmitido é um sonho não realizado, e não uma avaliação do que serviria àquele filho. Perceber essa diferença já muda a conversa em casa.
Se você foi essa criança
Se você leu este texto e se reconheceu, existe uma pergunta que costuma ser um bom começo: quando foi a última vez que você escolheu algo sem calcular a reação de alguém?
Se a resposta demorar, não é sinal de fraqueza. É sinal de um padrão que operou por muitos anos e que, por dentro, já se confunde com a sua própria personalidade. Foi assim que ele se manteve. E é exatamente esse tipo de padrão antigo, que resiste à compreensão racional, que a Terapia do Esquema trabalha.
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