Como saber se meu filho precisa de terapia?
Seu filho pode precisar de acompanhamento psicológico quando há mudança persistente no funcionamento dele: sono, apetite, rendimento escolar, convivência e humor. O critério não é a intensidade de um episódio isolado, e sim a duração e o impacto. Comportamento que dura semanas, atrapalha a vida cotidiana e não melhora com conversa e apoio em casa merece avaliação profissional.
Os sinais mais frequentes que levam pais a procurarem ajuda:
- Isolamento que se prolonga: recusa a sair do quarto, a ver amigos ou a participar da rotina da família.
- Queda importante e sustentada no rendimento escolar.
- Mudanças marcantes de sono ou de apetite.
- Irritabilidade constante ou explosões desproporcionais.
- Perda de interesse por atividades que antes davam prazer.
- Queixas físicas recorrentes sem causa clínica identificada, como dor de cabeça e dor de barriga.
- Autocrítica intensa, com falas do tipo "eu não sirvo para nada" ou "sou um peso".
- Qualquer menção a se machucar ou a não querer estar vivo. Nesse caso, a busca por ajuda deve ser imediata.
Em situação de risco
Se seu filho falou em morrer, em se machucar ou você encontrou sinais de automutilação, procure atendimento imediatamente: pronto-socorro, CAPS da sua região ou CVV pelo telefone 188 (gratuito, 24 horas). Nessa situação, não espere por consulta agendada.
Não é preciso esperar a crise
A pergunta que mais escuto de pais é se já está na hora ou se é melhor aguardar mais um pouco. Minha resposta costuma ser a mesma que dou a adultos que me procuram: a dúvida já é o sinal.
"Para todas as fases, o nosso sistema avisa, o nosso corpo avisa. Se já tem esse questionamento, se já tem essa pulguinha atrás da orelha, já é um sinal ali, já é o momento de você buscar ajuda. Porque já sinaliza que algo não está bom."
Karoline Palazzo, no Ponto de Entrevista Podcast (2025)
Psicoterapia não é medida de emergência. Ela funciona melhor quando começa antes do quadro se agravar, e uma avaliação que conclui que está tudo bem também é um resultado útil.
Por que quase sempre são os pais que procuram
É raro um adolescente chegar dizendo que precisa de ajuda. Na prática, quem faz o contato inicial é quase sempre a família:
"Com certeza os pais, os familiares, os amigos. É muito difícil o paciente chegar e falar: oi, preciso de atendimento."
Karoline Palazzo, no Ponto de Entrevista Podcast (2025)
Isso não significa que o adolescente não queira ajuda. Significa que, nessa fase, pedir é difícil: exige reconhecer a própria vulnerabilidade num momento em que a construção da autonomia está no centro de tudo. O movimento dos pais, portanto, não é intrusão. É abrir uma porta que o filho ainda não consegue abrir sozinho.
O que costuma travar a conversa em casa
Existe um conjunto de respostas bem-intencionadas que, na prática, ensinam o adolescente a não falar mais. São frases ditas no automático, muitas vezes por cansaço:
"Isso é drama." "Não é hora." "Em casa a gente conversa." "Eu te avisei."
"Quando a gente fala de pais que minimizam o sofrimento dessa criança, isso é drama, isso não é hora, não é momento, em casa a gente conversa: essas são falas que geralmente trazem uma dúvida, uma insegurança."
Karoline Palazzo, no Ponto de Entrevista Podcast (2025)
O efeito é cumulativo. Cada resposta dessas ensina que contar tem custo, e o adolescente conclui, sem dizer a ninguém, que é mais seguro resolver sozinho ou procurar respostas fora de casa, com frequência na internet. Quando o assunto volta, meses depois, já vem maior.
Como abrir a conversa sobre terapia
Alguns cuidados que costumam fazer diferença:
Apresente como cuidado, não como punição
"Você vai ao psicólogo porque está com problema" coloca a terapia no lugar de consequência. "Quero que você tenha um espaço só seu, para falar do que quiser, com alguém que não é da família" descreve o que ela realmente é.
Garanta o sigilo, e cumpra
O adolescente precisa saber que o conteúdo das sessões não será repassado. Sem essa garantia, ele comparece mas não fala. Cabe aos pais sustentar esse combinado, mesmo com a curiosidade natural de quem se preocupa.
Dê alguma escolha
Participar da decisão sobre horário ou sobre qual profissional experimentar aumenta bastante a adesão, porque devolve a ele algum controle sobre o processo.
Espere resistência inicial
Recusa na primeira conversa é comum e não significa fracasso. Vale voltar ao assunto depois, sem transformar a terapia em campo de disputa.
Terapia com adolescente também envolve os pais
Quando atendo crianças e adolescentes, o trabalho nunca fica restrito a eles. Os pais são o vínculo primordial, e o ambiente familiar é parte do que sustenta ou transforma o sofrimento.
"A gente até costuma brincar na faculdade: quem cuida das crianças cuida da família toda, cuida dos pais. Porque é isso, a gente trabalha também uma psicoeducação com esses pais, para que eles possam entender qual é o universo da psicologia."
Karoline Palazzo, no Ponto de Entrevista Podcast (2025)
Isso não quer dizer que os pais sejam culpados pelo que o filho sente. Quer dizer que eles são parte ativa da solução, e que envolvê-los aumenta a chance de a mudança se sustentar depois que o processo termina. Há um ponto delicado aqui: se o ambiente não muda em nada, o padrão tende a se repetir.
Assista à conversa completa
Falei sobre saúde mental de crianças e adolescentes, sinais de alerta e o papel dos pais no Ponto de Entrevista Podcast:
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Atendimento online. Se o caso for de criança ou adolescente e não for o meu perfil de atuação atual, oriento e indico o caminho adequado.
FALAR COM A KAROLINEAviso: este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento profissional individualizado. Se você está em sofrimento intenso ou pensando em morrer, ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24 horas) ou procure atendimento de emergência.